em resumos

Você realmente sabe como ler livros?

Já chegou leu um livro inteirinho para depois se dar conta que não entendeu muita coisa?

Ou então, dedicou mais tempo do que gostaria para um determinado livro que não atendeu às expectativas do momento?

Sim, os autores tem sua parcela de responsabilidade nisso, mas – em geral –  os leitores não fazem bem o dever de casa.

Eu também achava que mandava razoavelmente bem, até ter minhas definições atualizadas por este livro…

Como ler livros me ensinou e continua me ensinando a compreender as idéias dos autores de forma mais efetiva e com menos preconceitos.

Então, nesta resenha, espero condensar as principais técnicas do Mortimer Adler para nos ajudar a jogar um novo jogo intelectual.

Como Ler Livros:  Qual o propósito da leitura?

Quando a gente lê um livro, duas coisas podem acontecer.

A gente pode entender bem o que o autor quer passar ou pelo menos entender que a gente não entendeu nada. 🙂

Nessa dificuldade é justamente onde mora o porquê da leitura.

Ler é um exercício para aumentar o conhecimento.

Para alcançar este objetivo, são necessárias duas condições.

A primeira é que o autor tenha um maior nível de conhecimento que o leitor no assunto em questão.

Já a segunda condição é que leitor supere essa desigualdade até o fim dessa leitura.

Os 4 níveis de leitura

Um conceito chave para quem quer ler melhor, é a diferença dos níveis de leitura.

Segundo o autor, existem quatro.

Eles são cumulativos no sentido de que cada nível abrange todos os seus anteriores.

Isso significa que não há como progredir para um nível mais alto sem dominar os níveis mais básicos.

Vamos conhecê-los?

Nível#1: Leitura Elementar

Para dominar esse nível, você apenas precisa saber executar os fundamentos de assimilação via leitura.

Essa base é geralmente passada na nossa infância durante o processo de alfabetização.

Nesse nível de leitura, a pergunta que o leitor deve responder é “o que essa frase diz?”

Embora também possa ser considerada uma pergunta complexa, neste momento ela deve ser analisada em seu sentido mais simples.

É interessante notar que apesar desse estágio ser o mais básico de todos, todos nós temos espaço para evoluir nele.

Seja aumentar a velocidade da leitura, conseguir interpretar diferenças de contexto ou expandir nosso vocabulário, devemos manter um desenvolvimento contínuo pelo resto da vida.

Nível#2: Leitura Inspecional

Neste nível de leitura o principal objetivo é extrair o máximo de um livro quando houver limitação de tempo.

Vamos supor que você de alguma forma vai ser avaliado pelo entendimento de um livro como um todo e tem apenas 1 dia para se preparar.

Esse é o tipo de situação ideal para a leitura inspecional.

Em termos gerais, o foco deve ser na superfície do livro e aprender tudo que ela tem a oferecer.

Existem algumas técnicas para chegarmos a esse fim.

pré-leitura, por exemplo, consiste em ler os tópicos principais rapidamente, sem se ater às frases individualmente.

Outras dicas são:

Ler o título das páginas e o prefácio para entender o que esperar da leitura;

Buscar por passagens chave do livro;

Ler as notas do editor para leitura de contexto;

Folhear o livro inteiro, lendo alguns parágrafos e páginas pelo livro, com foco especial no final de cada capítulo ou passo, buscando pelas teses e argumentos principais.

Se assim como eu, você também lê no kindle,  uma dica para folhear de modo mais rápido é sair navegando pela aba que mostra as seções do livro, em vez de passar página por página, que pode ser um processo bem lento.

Nível#3: Leitura Analítica

O terceiro nível de leitura é uma tarefa mais complexa e sistemática do que as dos níveis anteriores.

O nível analítico implica uma leitura minuciosa e completa.

Sua função primária é a de compreender o texto de forma aprofundada e expandir a consciência como resultado do processo.

Para isso, é necessário se ter muitas perguntas organizadas sobre o que se está lendo.

Técnicas para a leitura analítica incluem:

Identificar as principais teses e buscar os argumentos que as sustentam;

Interpretar o significado das palavras usadas pelo autor;

Questionar a validade da construção lógica entre argumentos e teses.

Nível#4: Leitura Sintópica

O quarto e último nível de leitura é o mais complexo.

Ele requer bastante do leitor, mesmo que o material seja relativamente simples.

Também conhecido como leitura comparada, nesse nível, o leitor busca em vários livros ao mesmo tempo as respostas para perguntas previamente pensadas.

Com a ajuda dos livros que estão sendo lidos, o leitor é capaz de construir uma análise do assunto que pode não estar em nenhum dos livros.

Técnicas para a leitura sintática incluem:

Estabelecer terminologias comuns entre livros diversos;

Esclarecer questões e problemas através de conteúdos sobre o mesmo assunto;

Analisar a discussão e o ponto de vista de cada autor para procurar pela verdade.

Independente do nível, uma leitura eficaz evita preconceitos

Ler é como dialogar com alguém.

A diferença, porém, é que o leitor sempre tem a palavra final.

Em razão disso, devemos aos autores um julgamento justo e considerado de suas obras.

Em outras palavras, que devemos abandonar nossas suposições, entender seus pontos de vista profundamente.

Para sermos justos, precisamos primeiro ser capazes de dizer com confiança, “eu entendo”, para depois sim pensar em “eu concordo”, “eu discordo” ou “eu não tenho opinião. ”

Infelizmente, em geral nós buscamos “vencer uma discussão”, ao invés de focarmos na busca pela verdade, independente da fonte.

Essa idéia inclusive me faz lembrar de idéias semelhantes que discutimos na oficina de comunicação não-violenta com Dominic Barter.

Voltando ao ponto, o melhor a se fazer é deixar o ego de lado nessa ocasião.

Para ficar melhor ainda, o próximo passo é definir “vencer” como, simplesmente, adquirir conhecimento.

O desacordo é inútil, a menos que seja considerado como uma maneira de resolver um problema, ou como uma aproximação justa da verdade.

A primeira coisa que precisamos fazer é entender o autor, e a partir daí, fazer uma observação crítica à sequência e a lógica de seus argumentos.

A leitura crítica é uma questão de disciplina.

Essa idéia me faz revisitar as memórias de um relacionamento alegre que tive quando morava no México.

Especificamente, a um código que tínhamos criado como alerta para quando o ego começava a tomar conta de um ou de outro ou entrávamos numa espiral de insanidade por qualquer motivo (ciúmes e etc).

A palavra mágica era “bazinga”, que tomamos emprestada do personagem Sheldon do “The Big Bang Theory”, minha série preferida de todos os tempos.

Ou seja, falar “bazinga” era meio que um jogo divertido, um gatilho para checagem de sanidade que funcionava para a gente.

Tanto foi assim, que hoje uso o bazinga com a mesma finalidade nas minhas conversas mentais entre meu eu-maior e eu-menor.

Com esse código secreto, meu eu-maior tende a ganhar mais vezes as batalhas internas haha. 🙂

De volta ao raciocínio, devemos evitar qualquer preconceito e prejulgamento.

Lembre-se de que somos racionais, mas também emocionais.

Reconheça seus sentimentos e julgue o livro com argumentos embasados e contextualizados.

Esteja ciente de que você e o autor possuem seus próprios preconceitos e suposições.

O autor precisa dar razões para dizer o que diz e a gente também precisa ter razões para discordar dele.

Fazer comentários como: “eu não sei o que você quis dizer, mas eu acho que você está errado”, não ajudam em nada.

Não faz sentido nenhum responder às críticas desse tipo.

Finalmente, pode não parecer óbvio, mas não julgar ou criticar também é uma maneira de criticar.

Isso pode significar que você não está convencido ou que não foi persuadido de nenhuma maneira pela obra.

Leituras práticas

O que é um livro prático?

Qualquer livro que contenha regras ou prescrições guias ou qualquer tipo de direcionamento prático.

Existem dois tipos de livros práticos: os livros com regras atuais, em que qualquer discussão no livro gira em torno dessas regras e os livros com princípios que dão origem às regras.

Enquanto lemos qualquer livro prático, é bom termos em mente algumas perguntas.

Alguns exemplos são:

  • Qual o assunto do livro?
  • O que o autor quer que eu faça?
  • Como o autor sugere que eu faça isso?
  • Os objetivos do autor estão, junto com os meios propostos, de acordo com sua concepção do que é certo?

História, Peças, Poesias & Biografias

Para ler histórias e compreender a obra como um todo, ela deve ser lida de uma vez, ou pelo menos no menor período de tempo possível.

Devemos também ter cuidado para distinguir os livros que satisfazem nossas necessidades inconscientes, antes de dizer que uma história é boa.

Quando a obra é uma peça, ela só é compreendida quando atuada em um palco.

Por isso, o leitor precisa imaginar essa dimensão enquanto lê, como se a peça estivesse realmente sendo atuada.

Essa leitura é melhor compreendida quando lida em voz alta, lentamente e com expressão, por meio de palavras que são arranjadas com ordem e ritmo.

Leia tudo sem interrupção, leia em voz alta e leia mais de uma vez.

Qualquer poema lírico bom possui uma unidade.

Por fim, biografias e autobiografias são narrativas sobre a vida de alguém, ou seja, uma história de uma pessoa ou de um grupo de pessoas.

As autobiografias revelam muita coisa sobre a alma do autor.

As biografias são, em sua maioria, escritas depois que a pessoa já morreu.

Nelas, o autor reúne todo o material que conseguiu sobre a pessoa.

Leve em conta que as biografias autorizadas são muitas vezes enviesadas para que a pessoa seja vista de um ponto de vista que realce suas qualidades.

Leituras de Ciências & Matemática

Antigamente, quando não existia o ensino formal, todos os livros científicos e matemáticos eram escritos por leigos e para qualquer pessoa que lesse.

Atualmente, os livros mais modernos sobre esses tópicos são escritos apenas para pessoas no mesmo campo de estudo que o autor.

Então, para se entender realmente a ciência, a gente precisa replicar o experimento que o cientista fez.

Dessa maneira, é possível se entender a parte indutiva que é muito característica da ciência.

Tente observar as evidências que levaram o autor à sua conclusão.

Quanto à leitura de textos matemáticos, o autor nos lembra de que a matemática é uma linguagem.

Linguagem essa que é a menos influenciada pelos sentimentos.

Ele fala muito sobre a beleza e satisfação da matemática, graças à sua abstração e símbolos.

Leitura de Filosofia

A filosofia tenta responder questões como a existência do ser, as mudanças, a necessidade e a contingência, o conhecimento humano, o livre arbítrio, o bem e o mal, o certo e o errado, virtudes e vícios, felicidade, justiça, indivíduos e a sociedade e os propósitos da vida.

O problema filosófico é tentar explicar e descrever a natureza das coisas.

O principal objetivo ao ler filosofia é pensar sobre o que o autor está dizendo.

Todas as questões filosóficas, ao final, precisam ser respondidas pela pessoa que está lendo sobre elas.

Para maximizar a compreensão, o melhor a se fazer é ler mais de um filósofo sobre um tema específico.

Temos mais ou menos as mesmas experiências, mas o que diferencia os grandes filósofos de pessoas comuns é o fato deles pensaram profundamente sobre suas experiências.

Leituras de Ciências Sociais

É muito difícil definir o que são ciências sociais.

Mais ainda, é definir que tipo de livro você está lendo nessa área.

Em ciências sociais, é importante ler uma questão particular ou um problema ao invés de um autor particular ou um livro, porque é uma ciência que muda muito rapidamente.

É importante se fazer a leitura de autores que influenciaram o livro que estamos lendo, ou pelo menos conhecer um pouco mais sobre quem escreveu esses livros.

Livros nessa área precisam ser lidos de maneira sintópica.

Auxílios para a Leitura

Alguns livros são de compreensão mais complicada, pelo fato do desnível de conhecimento entre o autor e leitor ser bem significativo.

Por isso, podemos buscar alguns auxílios para facilitar a digestão.

Existem dois tipos de auxílios: o extrínseco e o intrínseco.

Quando falamos em extrínseco, estamos falando em ler um livro à luz de outros livros.

Já o intrínseco implica em lermos um livro sem qualquer relação com outros livros.

A ajuda extrínseca pode ser categorizada da seguinte forma:

Experiências relevantes

É comum termos dois tipos de experiências relevantes para entender livros complicados, que são as experiências comuns e as experiências especiais.

Um exemplo de experiência especial é de um antropologista que viaja para a Amazônia para estudar os habitantes de uma região não explorada.

As experiências especiais devem ser buscadas de maneira ativa e só estão disponíveis para as pessoas que procuram.

Já a experiência de ser pai por exemplo, é comum mas não é compartilhada por todos os seres humanos.

As experiências comuns estão disponíveis para todas as pessoas, mas não precisam ser compartilhadas por todos para serem comuns.

Outros livros

Ler outros livros relacionados podem ajudar a entender os livros difíceis.

Algumas vezes os autores são influenciados por outros autores, então quando lemos esses livros, podemos entender de forma mais precisa o contexto e as premissas.

Comentários, resenhas e resumos

Os resumos podem ser utilizados se você quer conhecer o conteúdo do livro antes de ler, para saber se a leitura será relevante para você.

Esse é inclusive meu principal porquê para assinar o 12 minutos.

Quanto aos comentários, é importante deixá-los para depois de ter lido o livro, para assim evitar vieses.

Livros referência

São os dicionários e as enciclopédias.

Portanto, para usar esses livros, você precisa ter pelo menos uma vaga ideia do que quer saber de antemão.

Já em termos de ajuda intrínseca,

os principais recursos são os elementos do livro que sucedem e antecedem o texto do livro propriamente dito, a exemplo do sumário, prefácio, introdução, prólogo, notas do autor e etc.

Tais elementos nos ajudam a decidir se a leitura do livro, seja inspecional, analítica ou sintópica realmente vale à pena, dado o objetivo em mente.

Existem 3 classes de livros quanto à qualidade

Existe uma classe de livros, que corresponde à 99% dos milhões de livros publicados no mundo ocidental.

Os livros que aí pertencem geralmente não vão nos ajudar na melhoria da  habilidade de leitura.

Portanto, é inteligente aceitar que não vamos aprender muito a partir deles, ou seja, não precisamos fazer sua leitura analítica.

Ao invés, uma leitura inspecional já vai ser suficiente.

Em seguida, existe uma segunda classe de livros com os quais você pode aprender – como ler e como viver.

Esses livros correspondem a menos de um 1% dos livros e eles demandam muito do leitor.

Finalmente, a terceira classe de livros é ainda menor.

São livros que nem mesmo o melhor leitor consegue tirar toda a informação.

O caldo é infinito. 🙂

Por isso, devemos buscar esses poucos livros, pois terão grande valor para a vida.

Eles são livros que nos ensinam muito, tanto sobre leitura quanto sobre a vida.

Além disso, nos instigam a repetir a leitura inúmeras vezes, porque apresentam novas nuances a cada releitura.

Considerações Finais

A leitura ativa é o ato de fazer perguntas e procurar por respostas.

Apenas conseguimos melhorar como leitores se lermos livros que nos desafiam, que estão além da nossa capacidade atual.

Estes livros vão trabalhar a nossa mente e nos ajudar a evoluir.

Os grandes escritores sempre foram grandes leitores, mas isso não significa que eles leram todos os livros que foram listados como indispensáveis.

Em muitos casos, eles leram alguns poucos livros, mas leram muito bem.

Porque eles dominaram esses livros, se tornaram parte do mundo dos autores.

Dessa forma, passaram a ser autoridades no meio.

O curso natural de eventos é que, um bom aluno se torne um professor, e da mesma maneira, um bom leitor se torne um autor.

E você?

O que achou das idéias do Mortimer Adler sobre o processo de leitura?

Se identificou com alguma?

Adoraria conversar contigo nos comentários! 🙂

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